Arquivos e bibliotecas não apenas enriquecem o patrimônio documental e bibliográfico de uma instituição, mas também revelam as dinâmicas complexas de preservação e a formação de uma política institucional para a aquisição de acervos pessoais. O historiador Luccas Eduardo Maldonado defendeu, em dezembro de 2025, junto ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), uma tese que examina o caso da Unicamp no contexto de captação de acervos privados, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, e sua importância para a formação de uma infraestrutura de pesquisa nas ciências humanas. Orientado pelo professor Thiago Nicodemo, Luccas estudou a aquisição de diversos acervos privados pela Unicamp, a exemplo dos intelectuais Paulo Duarte, Oswald de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda.
A análise revela não apenas o valor dos arquivos e bibliotecas pessoais, mas também as dinâmicas institucionais que influenciam a preservação e o manejo de arquivos pessoais de figuras públicas. No período da ditadura militar e, pouco mais a frente, no início da redemocratização do país, não havia ainda uma política institucional de gestão documental na Unicamp. Legados dos intelectuais, de expressivo interesse por parte de alguns professores da Unicamp, seriam, então, os primeiros passos para a formação dessa política e, especialmente, um impulso à estruturação de pesquisas na área de Humanidades. O acervo de Paulo Duarte foi a primeira aquisição da Unicamp na década de 1970, estando atualmente o seu arquivo no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE) e os livros na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho (BORA). Ao contrário do que ocorre normalmente, foi vendido em vida pelo jornalista. “A preservação da memória ganha muita força na efervescência política e cultural, advinda do período militar. A Unicamp, em especial, tem um papel protagonista nessas aquisições, ganhando disputas com outras universidades”, analisa Maldonado.
Um dos acervos que também compõem o estudo é o do historiador Sérgio Buarque de Holanda, que, adquirido em meados da década de 1980, culminou na criação de dois marcos institucionais fundamentais: o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) e o Sistema de Arquivos da Unicamp (SIARQ), originados do Centro de Informação e Difusão Cultural (CIDIC), em 1984. A consolidação desses sistemas articulou práticas de preservação, curadoria e circulação de acervos com a consolidação de linhas de pesquisa e centros de documentação.
A tese, inclusive, teve impulso com a participação de Luccas como curador na exposição “40 anos do acervo do acervo arquivístico e bibliográfico de Sérgio Buarque de Holanda na Unicamp”, realizada em 2023 pelo Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Unicamp (AC/SIARQ) e pela BORA da Unicamp, os quais custodiam respectivamente o arquivo e a biblioteca do escritor. A mostra teve parceria com o Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp). “Isso incluiu temas como processos de recolhimento de documentos e como as famílias dos intelectuais conduziam essas negociações”, explica Maldonado. No caso do acervo de Sérgio, o papel central no processo de aquisição foi de Maria Amélia Buarque de Hollanda, viúva do historiador, apoiada pelo professor Antônio Cândido de Mello e Souza. A venda dos documentos para a Unicamp não foi imediata, pois havia interesse também da USP e de instituições internacionais. Essa disputa também é analisada por Luccas em seu estudo, assim como o papel de Maria Amélia, que vai muito além da cuidadosa entrega dos documentos. “Amélia tem total protagonismo como parceira intelectual de Sérgio, ao longo de toda a carreira do historiador. Seu nome não está na capa dos livros, embora tenha o ajudado largamente. Além de ter um papel central na preservação de sua memória décadas após sua morte”, avalia.
Diversas pesquisas no AC/SIARQ foram necessárias para que o texto fosse refinado até virar tese. “Tenho boa relação com diversos arquivos do país, mas tenho especial gratidão ao SIARQ. Em todas as pesquisas que fiz, fui atendido de maneira exemplar, por profissionais que vão além do que peço justamente porque entendem do acervo e sabem indicar caminhos”, afirma. “A eficácia dos sistemas de pesquisa e de preservação é fundamental para os resultados de nossas investigações e interpretações”, conclui o pesquisador, cujo próximo passo é o pós-doutorado no IEB-USP, com foco ampliado para acervos do estado de São Paulo. Em breve, o capítulo da tese sobre a história do AC/SIARQ e do SBU virará livro, a ser editado pelo Centro de Memória – Unicamp (CMU) ainda em 2026.








